Enfim, acabou!

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Há 295 dias era véspera do início do meu tratamento contra um câncer de mama, e eu resolvi escrever algumas reflexões no meu diário. Gostaria de compartilhar uma parte delas aqui, afinal, foi agora nessa sexta-feira, 03 de Junho, que joguei o avental hospitalar no lixo e brindei ao último dia dessa rotina pesada do meu tratamento inicial.
“Amanhã faço meu 1º ciclo de quimio. A ansiedade foi (e ainda é) a emoção que mais aparece nesses últimos dias. O desejo de fazer tudo o que gosto e de aproveitar a vida até o último segundo faz parecer que não serei mais a mesma a partir de amanhã. Não sei o que vou sentir, na verdade não sem nem SE vou sentir. Hoje cortei meus cabelos, cortei mais curto, mas ainda tem bastante cabelo aqui pra cair. Fiz minhas unhas, só não me depilei porque vai cair tudo mesmo. Também fiz sexo com meu namorado, vai saber quando vou querer fazer de novo! Tomei chopp e comi comida japonesa essa noite, porque agora só poderei daqui 6 meses. A cerveja com os amigos me fará muita falta. Hoje não fui trabalhar, e minha mãe e minha prima me acompanharam na consulta. Amanhã, elas e meu namorado estarão comigo na quimio. Hoje falei com pessoas queridas, chorei, ri… Estou pronta para essa nova fase da minha vida: muito difícil, talvez dolorosa, mas que vou lembrar pra sempre. Sairei dela com muita coragem, alegria de viver e com amor a todos.”

É, eu achava que um tratamento de câncer era quase como ter sua alma roubada por bruxas. Mas não foi bem assim.
Pra quem já passou por isso ou já acompanhou alguém nessa fase sabe bem as palavras que vou usar agora, achei importante registrar aqui de uma forma bem resumida tudo o que passei durante quimioterapia, cirurgia e radioterapia.
Desde Agosto de 2015, nestes 9 meses e 20 dias de tratamento, passei por 4 quimios vermelhas e 12 brancas (inclui-se aqui também medicamentos antieméticos, antialérgicos e anti-inflamatórios presentes em toda quimio), algumas aplicações de Zoladex e Neulastim, muitas de Granulokine, anestesia geral, cirurgia conservadora, internação, comparecimento na emergência, biópsias, 30 sessões de radio, vários exames de sangue e de imagem, além de inúmeras ligações para o convênio e muitos km rodados nas idas ao hospital. Também estiveram presentes os antibióticos, analgésicos, antitérmicos, relaxantes musculares, filtro solar, lubrificantes íntimos, hidratantes e pomadas. E é claro que foram muitos os efeitos físicos e psicológicos de toda essa bomba que entrou no meu corpo: noites mal dormidas ou de insônia, dias inteiros na cama, muita dor no corpo, nos ossos e no estômago, imunidade muito baixa, queda do cabelo e pêlos (inclusive cílios e sobrancelhas), enjôos, gosto ruim na boca, vista embaçada, pele ressecada, alergias, unhas pretas, dente inflamado, febre, infecções, inchaço, intestino preso e depois solto, aumento de apetite, aumento de peso, desaparecimento das veias, indisposição, ondas de calor e de frio repentinas, cansaço, fadiga, tontura, fraqueza, mal-estar, desânimo, dependência, cicatrizes, dor no seio e dificuldade para levantar o braço (por causa da cirurgia). Hoje não tomo nenhum remédio como parte do tratamento, apenas passo hidratante no seio para diminuir os efeitos da radio. Tudo está se normalizando novamente, os pêlos voltaram, o cabelo já está crescendo bem rápido, mas alguns sintomas ainda me acompanham: cansaço, menopausa e, por causa da radio, escurecimento da pele do seio com coceira. Por eu ter tido um tumor triplo negativo (já fiz um post sobre isso anteriormente explicando os tipos de câncer de mama), meu tratamento é composto apenas por essas 3 fases, não sendo necessário terapia hormonal e nem fazer uso de outros medicamentos. Mas é claro que a partir de agora ainda passo frequentemente em consulta com oncologista, mastologista e radioterapeuta e ainda faço muitos exames de sangue e de imagem como forma de monitorar todo meu tratamento, que ainda se estenderá por 5 anos, para evitar ou reduzir a possibilidade de uma recidiva.

Mas, Lili, você já está curada?
Sim, deste câncer sim (o pessoal que fez promessa pela minha cura, já pode começar a cumpri-la, hein?!).
E quer mais? Segundo a Nova Medicina Alemã (http://www.germannewmedicine.ca/documents/Five%20Biological%20Laws%20-%20Portuguese.pdf), eu já estava curada há muito tempo, não precisava nem ter passado por quimio, cirurgia e radio. Mas eu descobri essa medicina e me consultei com especialistas da área quando já estava no meio do tratamento tradicional e, cá entre nós, é muito difícil tomar uma decisão dessas quando sua mente está acostumada a pensar de uma única forma durante a vida inteira. Enfim, o conflito relacionado a este câncer eu já resolvi.

Mas, voltando àquela passagem do meu diário, em que eu achava que ao começar o tratamento minha alma seria tirada de mim…
Durante todo o tratamento, a ansiedade e os sentimentos depressivos tiveram que dar lugar à paciência, todo santo dia. Continuei me emocionando com muitas coisas. Meus cabelos caíram e resolvi raspar a cabeça, foi libertador e me fez enxergar qual era a minha beleza. Os pêlos também sumiram todos bem rapidinho, eu pintava minhas unhas frequentemente e comecei a gostar de me maquiar (me olhar no espelho e gostar do que via era uma parte bem importante para eu seguir em frente). A menopausa precoce chegou, e com ela a diminuição da libido sexual. A cerveja sem álcool era minha opção nos momentos sociais, mas não era legal ver todo mundo rir por qualquer coisa e eu não achar graça nenhuma. Mesmo assim, não deixei de estar com os amigos e nem de viajar, especialmente pra praia. A água foi minha grande companheira (às vezes, um limão puro caia muito bem), e eu aposentei o café por um tempo, pois só o cheiro me enjoava. Alimentação em casa, da forma que orientavam os médicos. Fiquei afastada do trabalho por 9 meses (eu não tinha previsto que seria por todo esse tempo), a situação financeira apertou e a sensação de dias vazios e sem propósito demorou um pouco pra passar, mas o contato com mulheres que estavam vivendo momentos parecidos me fizeram aproveitar bem esses “horários vagos” na minha agenda. E, por meio da querida Flávia Flores, pude me realizar como “modelo” em alguns projetos que participei relacionados ao resgate da auto-estima a partir do câncer, foi aí que conheci pessoas maravilhosas, cada uma com sua história e lição de vida. Estive sempre acompanhada e cuidada por pessoas muito especiais, e minha família se uniu mais ainda, mostrando-me que eles eram fortes o suficiente para suportar qualquer desafio. Muitas pessoas reapareceram na minha vida, outras se mostraram tão preocupadas comigo, o que não faltaram foram dedos para digitar bastante respostas às mensagens de carinho todos os dias.

Chorei muito, mas sorri muito mais. Sim, eu estava pronta para enfrentar tudo isso: foi difícil, mas muito menos do que eu poderia imaginar; doeu sim, mas menos do que a dor causada por alguns conflitos que a gente demora pra resolver. Tive coragem para abrir minha vida a quem quisesse saber e para escrever sobre minha experiência com o câncer de forma positiva. Ganhei de brinde a redescoberta de interesses voltados à saúde humana sob a ótica de algumas medicinas, do prazer pela escrita e pelo aprendizado.

Agradeço imensamente todas as orações, sorrisos, preocupações, companhias, esforços, oportunidades e confiança. Aos profissionais de saúde do Hospital A.C. Camargo, obrigada pelo respeito, cuidado e atendimento excelente. Agradeço também a todos que se dispuseram a ler esses textos (enormes, eu sei! me desculpem). Obrigada por se tornarem “cúmplices” desse momento da minha história de vida. E eu não vou parar de escrever, não, fiquem tranquilos! 😉

Ainda amo a vida e acredito nas pessoas, mas aprendi a amar a Deus e reconhecê-lo como energia, presente em cada um de nós, em todos os lugares e nas suas mais diversas manifestações. Foi aí que senti o amor que tenho por mim, antes abafado pela preocupação de amar o outro em primeiro lugar. Se pra uns o câncer chega a fim de que a pessoa dê mais valor aos que estão a sua volta, já eu, independementemente de isso agradar ou não ao outro, aprendi a respeitar meus limites e a valorizar meus próprios sentimentos, meu corpo e minha alma, cada dia mais.
Realmente, não sou mais a mesma!

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Nas mãos deles…

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Eu não sumi, nem parei de escrever… eu apenas estava aproveitando a vida!

Foi 1 mês de pausa no tratamento para meu corpo se recuperar daquelas bombas químicas adoráveis que tomei durante 5 meses. No total, foram mais de 50 picadas de agulha (em seus diferentes calibres) no braço e na barriga, que incluíam quimioterapias, injeções para imunidade, para ovário, antialérgicos, antienjoos e exames de sangue. Tudo isso eu consegui realizar sem precisar colocar o famoso cateter. Tem gente que diz que ele é a melhor coisa para aplicação das quimios, mas eu me dei bem com as agulhadas toda semana na veia (ou melhor, nas veias, porque até as da mão não escaparam). Mas precisei tomar muita água diariamente e fazer alguns exercícios para que minhas veias não desaparecessem. E deu super certo!

A recuperação dessa primeira fase está sendo muito rápida, fico abismada do tanto que nosso corpo trabalha de forma fantástica. Eu tinha medo de que aquela enorme falta de vontade de fazer qualquer coisa (sim, me senti deprimida por muitas vezes e sem motivo) fosse permanecer pra sempre, mas não, hoje tenho vontade de muitas coisas, inclusive de sexo! O cansaço com o mínimo de esforço, o formigamento nos dedos dos pés, a menopausa precoce e uns quilinhos a mais ainda habitam meu corpo e vão demorar um pouco pra sair, mas… os meus cabelos!!! Eles já estão visíveis, com bastante falha ainda, mas estou começando a seguir aquelas dicas de shampoo específico e vitaminas. Na verdade, estou ansiosa mais por ver como será meu visual com cabelo bem curtinho do que querer realmente que eles cresçam. Desde que me conheço por gente eu tinha cabelos compridos. Ficar careca é tão mais prático (e eu adoro praticidade): é tão bom tomar banho de cabeça depois da meia noite sem se preocupar em dormir de cabelo molhado.

A maior parte das coisas que eu estava impedida de fazer nesses últimos meses eu já dei um jeito de matar as saudades: já tomei cerveja e vinho, já destruí na comida japonesa, já fui pra balada, já viajei pra longe… Muita coisa ainda falta, como assistir a shows, dançar ou viajar com os amigos, por exemplo, mas o ano está só começando… E agora eu consigo pensar mais adiante, num prazo mais longo que o de 1 semana, pois era assim que eu costumava pensar durante as quimioterapias que me limitavam as atividades entre uma aplicação e outra.

Em meio a isso tudo e a outras questões pessoais, comecei a dedicar minhas energias em busca da minha espiritualidade. Não sou religiosa, mas tenho fé, acredito no poder do universo e da mente, em forças maiores, em energias e vibrações, em espíritos, em vidas passadas, no amor, na medicina tradicional e na ayurvédica e, principalmente, nas pessoas. E alimentar essa minha fé que estava apagada tem me feito muito bem.

Bom, mas vamos ao que todo mundo está querendo saber: a próxima fase do tratamento.

Será agora, essa sexta-feira, a cirurgia para retirada do pequeno “ser” que me acompanha diariamente há alguns meses.

Para as pessoas que optam pelo tratamento neoajuvante (primeiro quimio e depois cirurgia, como é o meu caso), os exames para verificar o tamanho do tumor só são feitos antes de começar o tratamento quimioterápico e após ele terminar, para então se programar a cirurgia. Meu tumor diminuiu de 3 para 1,2cm de diâmetro, resultado muito satisfatório segundo meus médicos. Parece pequeno, né, mas eu ainda sinto o “intruso” aqui facilmente. Ele só não sumiu por completo porque tive que deixar de tomar um medicamento nas quimios que estava diminuindo muito minha imunidade e poderia ficar inviável a continuação do tratamento.

A cirurgia será uma quadrantectomia (onde se retira apenas um quarto da mama e da pele junto com o tumor), e não a mastectomia (quando se retira a mama inteira). Também será feita a retirada do linfonodo sentinela da minha axila (não será necessário fazer o esvaziamento axilar), para verificar a existência ou não de tumor nesse gânglio, uma vez que ele é o primeiro linfonodo a receber drenagem linfática do tumor primário da mama e afetar outros gânglios a ponto de espalhar para o restante dos órgãos. Clinicamente, meu linfonodo é negativo, mas só com a biópsia é que teremos certeza. Lembra daquele “x” no estadiamento do meu câncer (T2NxM0)? Então, é ele que iremos descobrir depois da cirurgia. E pra ele ser encontrado no momento da operação, é necessário fazer um exame de marcação um dia antes da cirurgia, chamado Linfocintilografia.

A escolha da cirurgia e do esvaziamento axilar depende do estadiamento do câncer, do tamanho do tumor e do tamanho da mama (e já que papai do céu foi generoso me dando muito seio, meu médico acredita conseguir fazer um bom trabalho a ponto de uma mama não ficar tão diferente da outra). Para esclarecer, nesta cirurgia, não colocarei prótese e nem farei plástica, isso tudo ficará para ser pensando e discutido num outro momento daqui a 1 ano mais ou menos, quando eu já tiver terminado todo o tratamento e quiser resolver os problemas estéticos que poderão aparecer. Além disso, ainda preciso fazer uma análise de DNA para saber se meu câncer foi causado por mutação genética, pois se positivo a tendência médica é a de retirada das mamas, útero e ovário. Mas como ainda não consegui realizar essa análise (por burocracias brasileiras), optei pela cirurgia conservadora, para que esse “ser” saia do meu corpo o mais rápido possível, além de estar muito bem respaldada no hospital A.C. Camargo, onde consigo fazer todo meu tratamento de forma confiável.

É claro que nesses últimos dias fiquei apreensiva por não ter certeza absoluta se a cirurgia conservadora era a melhor escolha para minha cura. Conversei com várias “amigas do peito”, aquelas que a gente conhece a partir do momento em que tem câncer de mama. Também consultei outro médico, que teve outra opinião: retirar as mamas e colocar prótese. Mas esse processo iria demorar mais 1 mês para ter aprovação parcial do convênio (pois eles só pagam pela reconstrução da mama afetada pelo tumor) e, mesmo assim, estudos mostram que os riscos de uma recidiva local após a mastectomia seriam equivalentes aos de uma cirurgia conservadora.

Uma coisa é certa quando se tem câncer: não se pode perder tempo. Então, lá vou eu para a primeira cirurgia da minha vida. E você, vê se vai lá me visitar. Antes ou depois da cirurgia, eu irei adorar receber visitas! E aqui no blog, nos vemos depois, quando eu já for uma outra pessoa sem essa “coisa” dentro de mim! =)

 

Data: 19/02/2016 (sexta-feira).

Horário da cirurgia: previsão para iniciar às 13h e terminar até as 15h, mas eu estarei no quarto desde cedo na sexta até a tarde de sábado, provavelmente.

Local: Hospital A.C. Camargo, em São Paulo.

Horário de visita: das 10h às 21h.

Ter filhos… Preciso mesmo pensar nisso agora?!

Hoje concluí mais uma fase do meu tratamento: a preservação dos meus ovários!

O que isso tem a ver com câncer e quimioterapia? Muita coisa.

FullSizeRender-3Se alguém está em tratamento quimioterápico, com certeza irá passar por várias especialidades médicas para tratar das inúmeras reações que seu corpo irá manifestar nesse momento. No meu caso, por enquanto, já visitei os consultórios de mastologia, oncologia, dermatologia, ginecologia, proctologia, odontologia, vascular e oncogenética.

No tratamento do câncer de mama, além dos medicamentos utilizados para reduzir/destruir o nódulo e impedir metástases, existem alguns outros que são administrados nas pacientes para evitar/diminuir outros efeitos colaterais muito importantes. Um desses efeitos pode ser irreversível, como o impacto na fertilidade, principalmente nas pacientes jovens e sem filhos.

A quimioterapia age em todo o corpo e pode acabar afetando o funcionamento dos ovários (reduzindo a quantidade e a qualidade dos óvulos) durante o tratamento ou até mesmo para vida inteira. Por isso, médicos orientam (ou, pelo menos, deveriam orientar) as pacientes a congelarem seus óvulos em clínicas especializadas. Como esse procedimento é bastante caro, existe outra opção: tomar uma injeção (a que eu tomo é o Zoladex) que bloqueia a produção de estrógeno, provocando uma menopausa temporária e preservando a fertilidade. Com isso, as pacientes têm mais possibilidade de desenvolver uma gravidez normal após concluir a quimioterapia. É claro que estar em menopausa forçada aos 29 anos de idade com todos os sintomas que ela tem direito não é nada fácil, mas já que os estudos mostram que o uso dessa injeção reduz em mais de 60% o risco de falha dos ovários, eu escolhi não contar com a sorte.

Se tenho o desejo de ter filhos? O câncer me fez parar pra pensar nessa pergunta.

A resposta eu já encontrei. Não tão cedo, nem muito tarde… apenas no tempo certo.

 

Doenças da Alma

Recentemente, li um texto escrito pelo meu primo sobre uma fase ruim pela qual ele está passando e identifiquei muita semelhança entre essas duas doenças que parecem acometer um batalhão de gente nos últimos tempos: o câncer e a depressão.

Além do fato de que ambas as doenças podem atingir qualquer tipo de pessoa em qualquer época da vida, algumas de suas causas também podem ser bem parecidas, como fatores genéticos, traumas, eventos estressantes ou abuso de álcool. E os medicamentos utilizados durante o tratamento, então?! É como se você ficasse alheio a sua própria vida. Também não posso deixar de comentar que todo mundo sempre tem uma história de câncer ou depressão pra contar que alguém próximo já tenha passado. E, quando a gente para pra pensar, infelizmente chegamos à conclusão de que essas doenças parecem querer mesmo dominar o mundo.

O desespero começa quando percebemos que o controle da nossa vida parece estar perdido ao sermos diagnosticados, é como se a partir desse momento você se tornasse a própria doença, pois tudo começa a girar em torno dela. E é fato de que ela vai permanecer contigo durante todo o decorrer da sua vida, seja pelas marcas que ela te causou nos momentos mais críticos ou pelo acompanhamento médico preventivo que você nunca mais poderá se livrar.

A gravidade dessas doenças crônicas é que elas afetam o ser humano por completo: pensamento, sentimento, comportamento, humor e saúde física (não necessariamente nessa mesma ordem). E mais, atingem também toda sua família.

Mas o que eu gostaria de enfatizar aqui é o poder da mente no desenvolvimento e tratamento dessas duas doenças e o fato de que elas parecem estar interligadas num ciclo vicioso terrível: se por um lado a doença crônica aumenta o risco de depressão, a depressão também aumenta o risco de doenças físicas.

Falo por mim mesma de que o tratamento do câncer te deixa debilitado fisicamente e altera seu estilo de vida, muitas vezes fazendo com que você dependa de outras pessoas para tarefas simples do seu dia. O câncer te traz o medo de morrer e o faz vivenciar um estresse constante. Alguns medicamentos também podem favorecer o surgimento de sintomas da depressão.
Quem não ficaria depressivo com tantas complicações? Quanto mais depressão, menos vontade de viver, maior o risco de mortalidade.

O trecho abaixo entre aspas, retirado do blog http://www.pegandogancho.com.br, são palavras do meu primo, que vive hoje os sintomas da depressão.
Fecho esse texto com uma reflexão sobre o que é um novo dia para nós que estamos vivenciando algumas dessas doenças tão terríveis de hoje em dia, as doenças da alma.

“A arte de fazer crochê assemelha-se muito à arte do bem viver. Em ambos é preciso ter técnica, para saber o que se está fazendo; dedicação, para que o que se está fazendo seja feito e bem-feito até o fim; paciência, pois é errando que se aprende; atenção, para conseguir transformar o erro em acerto; esforço, pois, para conseguir alcançar um objetivo, é preciso persistir; e amor, muito amor, para que, no final, tudo tenha valido a pena.
A depressão tirou-me ‘do jogo’, fez com que eu me isolasse, perdesse minhas habilidades, minha auto-estima, meu amor próprio. Em certa medida, hoje eu sou uma criança aprendendo a dar seus primeiros passos. Não é fácil, são muitos os tombos (alguns muito doloridos) e o dia de andar com as próprias pernas parece que nunca se avizinha. Todo dia é um recomeço. Tarefas simples tornam-se verdadeiros martírios. A dor, o sofrimento, a desesperança são indescritíveis. No crochê, espero encontrar um alento, um caminho que me leve de volta aos trilhos da minha vida.
Hoje não deu, mas amanhã é um novo dia.”

Amanhã é um novo dia para se aprender novamente a técnica de viver consigo mesmo, dedicar-se a si e aos outros de corpo e alma, ter paciência para saber viver um dia após o outro com muita sabedoria, atentar-se para que os erros sejam cometidos cada vez menos, esforçar-se para seguir sempre em frente e com a cabeça erguida, e ter muito amor por si mesmo para saber viver intensamente cada um dos dias de nossas vidas. E nós conseguiremos!

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Chega a hora de ficar careca…

A perda do cabelo durante o tratamento quimioterápico não é o fim do mundo como muitos pensam ser. E, pra mim, esse não foi o pior momento do meu tratamento.
Após 15 dias da primeira quimio, meus cabelos começaram (e terminaram) de cair, tudo em apenas 2 dias. O couro cabeludo dói alguns dias antes e quando um fiozinho começa a cair, aí esquece, você está prestes a perder toda sua cabeleira (e também os outros pêlos que habitam seu corpo inteiro. Isso mesmo, inteiro).
Hoje não vou escrever muito pois o vídeo (e a música) já falam por si só. Espero que gostem!
“Serei o que sobrar de mim, sem nada a perder”.

PS.: Ao final do vídeo, sou eu tentando convencer minha mãe a não raspar o cabelo dela também. Eita mulher teimosa! Mas eu consegui! Ufa!
Já com meu pai e minha prima, que estão longe de mim, não tive como interferir! :0 Família doida essa minha!

Filmagem: Alana Santos
Produção e Edição de Vídeo: Victor Hugo Simões
Música: Me sinto ótima (Banda do Mar)

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Que comecem as quimioterapias!

Já que meus cabelos iriam cair em alguns dias, tratei de cortar as madeixas que eu tinha, pois eram bem compridas.

Foi com esse novo visual que me despedi de alguns momentos que eu não poderia mais usufruir durante a quimioterapia: comida japonesa e cerveja, por exemplo!

E também foi assim que comecei as sessões de quimioterapia vermelha (que era vermelha mesmo) com os meus eternos acompanhantes: minha mãe, minha prima e meu namorado. Nesse momento, eu já estava afastada do meu trabalho.

Seriam 4 ciclos de quimio vermelha dose densa (de 15 em 15 dias, normalmente as pessoas fazem de 21 em 21), acompanhadas de injeção para aumentar a imunidade e outra também pra preservar meus ovários (o que me deixaria em estado de menopausa durante toda a quimio). E depois 12 ciclos de quimio branca semanais.
A partir da primeira sessão de quimio, comecei a viver meus dias da seguinte maneira:
Aplicação de quimio -> 1 semana ruim -> 1 semana boa
Nessa semana ruim, nem mexer no celular eu conseguia. Sentir cheiro de café? Nem pensar. Pouca conversa, pouca tv, nada de leituras. Em compensação, muito enjôo, fadiga, cansaço, calor e frio. Mas fome eu tinha, tinha vontade de comer a toda instante.
Na semana boa, eu procurava fazer as coisas me davam prazer, colocava as conversas em dia, recebia visitas, saía um pouco de casa… e torcia para os dias não passarem tão rápido até a próxima quimio. Mas eles passavam.

Durante as primeiras quimioterapias, fiquei na casa da minha família em São Bernardo do Campo, minha mãe veio pra cá cuidar de mim. Mas eu me sentia como na minha própria casa. Sempre tive muita liberdade lá e dessa vez não foi diferente. Tenho certeza que eu não poderia estar em lugar melhor pra enfrentar a barra das primeiras quimioterapias (Obrigada, tia Lourdes, Lana, Nathan e vó Maria pela hospitalidade e carinho).

Nesse momento em que as pessoas começam a saber da sua situação, elas te mandam muitas mensagens e pensamentos positivos. Criamos um grupo da família no WhatsApp pra que todos soubessem notícias minhas em tempo real. Seja nos EUA, em São Paulo ou em Sertãozinho, toda minha família estava sempre me acompanhando e orando por mim (Obrigada, Ju, tia Ângela, tio João, tia Vera, Bi, Vivi, Tiago, Jacque e July pela preocupação e mensagens de força sempre).

Cada pessoa a sua maneira me mandava muita energia boa e desejos de melhora. A cada dia eu recebia notícias de alguém que estava me colocando em oração, seja pela Igreja Católica, Centro Espírita, Umbanda ou Budismo… Meu nome esteve presente em muitas rodas e encontros de várias religiões, e isso me deixou muito feliz. Eu não imaginava esse amor solidário de tantas pessoas.

E chega a hora em que o cabelo realmente começa a cair… Mas essa história fica para o próximo post!
cabelo compridocabelo curto

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ACvermelha

eu e mamy

lana e eu

dani e eu

Cirurgia, Quimio, Radio… Nessa mesma ordem ou seria o contrário?!

A próxima etapa era contar para minha família, amigos e para o pessoal do meu trabalho sobre o diagnóstico e realizar os exames solicitados.

papi e mami

JuFui pra cidade dos meus pais dar essa tão difícil notícia a eles. A estratégia que encontramos (pois meu namorado foi essencial pra conter minha ansiedade nessa hora) pra amenizar as coisas foi primeiro mostrar que eu estava bem (e eu estava mesmo) e ir usando palavras bem sutis pra explicar o diagnóstico e todo o processo que nos esperava. Era um fim de semana em que comemoraríamos o aniversário da minha tia, praticamente minha segunda mãe. Foi num almoço de sábado, onde estavam meus pais e meu irmão. Depois do choque, do choro e do medo que toma conta da situação, conseguimos pensar racionalmente no assunto. A partir daí fui contando pra minha tia, meus tios, aos meus familiares que estavam longe contei por telefone, com o passar dos dias fui contando para os amigos mais próximos e a notícia foi se espalhando… Tive até festinha surpresa no bar pra contar a “novidade” e um brinde ao meu câncer de mama! Ninguém conseguia acreditar no diagnóstico, mas eu precisava ser forte pra que eles também se sentissem fortes e eu não desabasse. E deu certo! Todos nós conseguimos ter serenidade suficiente pra encarar de frente esse problema que havia se colocado em nossas vidas. E como eu não sentia nada físico, nenhuma dor, nada, foi mais fácil todos entenderem que eu estava bem e que tudo daria certo.

Familia

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FullSizeRenderIMG_3582O outro desafio era no meu trabalho: como contar tudo isso numa empresa em que estava trabalhando há apenas 2 meses?! Mas era isso que eu tinha que fazer… e fui muito surpreendida com a atitude de todos eles. Minhas chefes foram extremamenttrabalhoe sensíveis com o que eu estava passando e sempre pensavam na minha saúde em primeiro lugar. Minha equipe de trabalho (meus amigos de tão pouco tempo) foram muito receptivos e sempre estavam dispostos a me ouvir e segurar a barra com minhas ausências para realizar os exames e consultas.

Os exames tinham que ser marcados com urgência para saber se eu poderia operar e também se eu tinha metástase em alguma parte do corpo! Essa palavrinha dá um frio na espinha só de falar. Consegui realizar todos os exames com extrema rapidez, nunca tive um plano de saúde tão bom (Porto Seguro Saúde)! Foram eles:
– Exame de sangue
– Eletrocardiograma
– Cintilografia óssea
– Ressonância magnética de crânio
– Tomografia computadorizada de tórax e abdômen superior
– Ressonância magnética de mamas
– Mamografia bilateral
– Ultrassonografia second-look de mamas e axilas
– Estudo Imunohistoquímico (é um exame muito importante para se saber mais detalhadamente o tipo do tumor, o que definirá como será o tratamento)
Esse último exame demora um tempinho pra ficar pronto, mas foi o que mudou o rumo do meu tratamento…
Ao mesmo tempo, fomos (meu namorado estava lá comigo também!) atrás de passar por outros médicos, para ouvir segundas e terceiras opiniões. Ao todo, fui em 4 mastologistas e 3 oncologistas. E as condutas foram um pouco diferentes, até mesmo divergentes em alguns casos (só pra me confundir um pouquinho).

Com meu estudo imunohistoquímico em mãos, comecei a pesquisar sobre o tipo do meu tumor. É isso mesmo, não existe apenas UM câncer de mama, existem vários. E cada tipo tem um tratamento específico. O meu chama-se Triplo Negativo, muito prazer.
A característica do Triplo Negativo é não ter os 3 biomarcadores presentes nos outros tipos de tumores. São eles: receptores de estrógeno, progesterona e HER2. Cerca de 10 a 20% dos tumores representam os triplo negativos, e costumam atingir mulheres mais jovens. Eles são frequentemente mais agressivos, tendem a crescer mais rápido, têm mais possibilidade de dar metástases mais cedo, e pode voltar a aparecer com mais frequência nos próximos anos. Para esse tipo de câncer de mama, não houve muitos avanços na medicina com relação ao tratamento, e pra acabar com ele, dependemos exclusivamente da cirurgia, quimioterapia e radioterapia (nem sempre nessa mesma ordem).

Foi aí que recebi a informação de um dos mastologistas que passei: o melhor tratamento para meu tipo de câncer seria o Tratamento Neoadjuvante, ou seja, começar com a quimioterapia, e só depois realizar a cirurgia para retirada do tumor, e radioterapia pra completar.
Depois de pensar muito e ler bastante, decidi seguir com o Tratamento Neoadjuvante. A quimioterapia, que estava a uns 2 meses de distância num primeiro momento, já seria para dali uns 10 dias. Troquei de mastologista, de oncologista, de hospital! E a melhor coisa foi eu ter ido para um hospital que é um centro de tratamento, estudo e pesquisa em câncer (Hospital A.C. Camargo), pois lá temos todas as especialidades médicas e podemos realizar todos os exames num só local. Aliás, eu tive que realizar mais alguns procedimentos para poder começar a quimioterapia:
– Ecocardiograma (seria preciso monitorar meu coração por conta do potencial cardiotóxico das drogas usadas na quimioterapia)
– Clipagem do nódulo (foi preciso clipar meu tumor pois a expectativa é de que o nódulo reduza bastante de tamanho e, caso ele desapareça, existirá um clipe justamente no local onde estava o nódulo, para nortear a cirurgia que irá retirar as células que podem ter sido afetadas)

E eu estava pronta pra começar a tão temida quimioterapia! Ahhh, o resultado dos exames! Então, a partir deles foi possível classificar meu câncer de mama da seguinte forma: T2NxM0, onde T é o tamanho do tumor (T2 é quando o tumor tem entre 2 e 5 cm de diâmetro), N é se os linfonodo foram atingidos (só temos como saber na cirurgia) e M é a presença de metástases à distância (no meu caso, a AUSÊNCIA!).